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10 de outubro de 2013

OBESA

Eu sou OBESA.

Daquelas que a medicina se arvora em dizer que:
"PRECISA DE CIRURGIA".
Daquelas que as pessoas gordofóbicas se arvoram em dizer que:
"NÃO SE CUIDA".
Daquelas que as gentes se arvoram em dizer que:
"COM SAÚDE NÃO SE BRINCA, EMAGREÇA".

Eu sou OBESA.

Daquelas que são apontadas para os outros:
"LÁ VAI A GORDA, DEUS ME LIVRE SER ASSIM".
Daquelas que são interpeladas pelos outros:
"VOCÊ DEVIA COMER MELHOR, VIU?".
Daquelas que são escarnecidas pelos outros:
"QUANDO VOCÊ ANDA O CHÃO TREME".

Eu sou OBESA.

Daquelas que não chamam pra sair porque:
"NÃO CABE NA FOTO".
Daquelas que ouvem a todo momento:
"ISSO É FALTA DE VERGONHA NA CARA".
Daquelas para quem não se cansam de dizer:
"VOCÊ TEM UM ROSTO TÃO BONITO".

Eu sou OBESA.

Daquelas de quem O POVO RI, antes de matar.
Daquelas que SOBRAM NAS CADEIRAS UNIVERSITÁRIAS.
Daquelas de quem AS PESSOAS SENTEM NOJO.

EU SOU OBESA.

A minha sanidade, a minha pessoalidade,
Está sempre em dúvida. Sempre em xeque.
A minha capacidade laborativa, inexiste
Aos olhares das pessoas gordofóbicas.

EU SOU OBESA.

Eu inexisto pois atrapalho.
Eu inexisto mesmo existindo.
Eu não tenho direito à vida,
Até porque, estou apenas exagerando.

EU SOU HUMANA. SOU MULHER. SOU OBESA.
Minha alma é grande demais para os padrões.
Eu incomodo por provar ser possível.
Eu sou a diferença, eu vivo a diferença.

Eu sou obesa.

Apenas por dizer isso,
Destruo alicerces de vida.
Apenas por levantar a cabeça,
Eu já devia ter morrido.

Eu sou obesa.
Não morrerei por ser gorda,
Nem por nada a isso associado;
Morrerei por ter vivido uma vida,
Vilipendiada por um juízo abestado.


Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 10 de outubro de 2013.


9 de outubro de 2013

VÂNDALAS

Não mais as estradas ao sol;
Não mais os dias oficiais;
Não mais os risos afetuosos;
Não mais os abraços amigos.

Dos amigos sobraram os corpos,
Cadáveres torturados, desfigurados,
Desumanizadas consciências apagadas.
Lembranças olvidadas, legados de poeira.

Dos afetos restaram as partidas,
Infelizes renúncias em prol do amanhã.
Esperanças mutiladas, esquartejadas
Pelo tropel da incompatibilidade decisória
Em política, filosofia e expectativas...

Dos dias nada mais se guardou,
As dores, as infiltrações de luz,
A brisa revigorante - suspensa por ser livre...
Memórias distantes amareladas pela angústia.

Das estradas ficou o não andar,
A interdição excruciante da vida,
A solidão noturna da eterna sombra;
Os passos apressados da não-vida.

Tudo isso sedimentado em almas
Que guardam a resistência pura,
Isolada de tudo e de todos.

As sobras intangíveis - inatingíveis -
De tudo que se foi alguma vez;
A indelicadeza sutil e atroz,
Digna dos errantes perdidos,
Espalhados, sem raízes...
Mas ainda com propósitos,
Com fé em seus ideais.

Entretanto, começou o retorno da maré.
E as águas cansadas do aprisionamento
Resolveram devolver a violência sofrida.
São águas vândalas, irracionais.
Águas que não reconhecem autoridade.

Essas águas, como as gentes,
Tudo suportaram, tudo!
E como as gentes se cansaram,
Perderam as inibições, as censuras...
Não são amorais, contudo,
Possuem moral própria.

Vistas por quem já as ameaçou,
Essas águas devem ser represadas,
Vilipendiadas e readequadas à ordem
Naturalizada e cristalizada do mundo.

Essas águas, por tudo atacadas
E deslegitimadas, assim como as gentes,
Resistem, revidam, lutam.
E vandalizam. E eis que isso é bom.

Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 18 de junho de 2013.


15 de junho de 2013

O TEMPO E O LUGAR

Em que tempo e
Em que lugar,
Se permite, se aceita
Que todos os sonhos se evaporem?

Em que tempo e como

Se pode permitir que
As vidas sejam dilaceradas
Em escala industrial?

Em que lugar se permite

Que a própria juventude
Seja violentada, aviltada
De forma tal que nos impeça
De sentir e ver o que poderíamos ser?
Duma forma que nos faça
Esquecer nossos horizontes...

Em que tempo e em que lugar...


A vida segue, persegue

Arrebata, arrebenta;
Briga, brinca...
A vida é um rio,
Placidamente caudaloso

A vida continua,

Sem agarrar-se
A um lugar, a um tempo
Pois é infinita, ínfima.

Independentemente dos atores,

Mas sem imparcialidades ideais,
O cenário e o roteiro deste épico
São, sempre, semelhantes...
        Sempre...
Sofrem, de fato, alterações
Mínimas, adaptativas, para que
Encenemos uma velha peça;
Muda mesmo quando há falas...
De beleza e melancolia
Inquebrantáveis...

Como e em que tempo

E onde estamos parados?

Se tudo esquecemos,

Então, de que forma
Conseguiremos lembrar?

Afinal como se tortura alguém

Até que esse alguém esqueça
Sua identidade, sua essência?

Como fazer, realizar algo

Estando de pés e mãos e línguas
Atados, cortados, impossibilitados?

Como se aceita e outorga

O Poder e a Autoridade
Para que se violente, se aniquile
Sonhos, amores, vidas, ideais,
Famílias, indivíduos, realidades?

Como reparar todo e 

Tamanho mal?
Como mensurar e abranger o
Absolutamente intangível?

Qual é o preço disso tudo?

Se vamos pagá-lo, se vamos
De fato, honrar a dívida;
Haverá juros, taxas?

Ou será que abandonaremos

Tal situação irresponsavelmente?
Antes que ela nos intoxique,
Saberemos um antídoto?

O que destruir e de nós retirar

Para que tão somente se respire
Alguma coisa boa, feliz, limpa?

Há uma fumaça tóxica

Contaminando o fogo,
Imiscuindo-se na água,
Levando a terra embora,
Asfixiando o próprio ar.

Em que tempo e

Em que lugar,
Como se pode sobreviver?

Não apenas contra a loucura fixa

Dos mais claros dias de sol;
Ou contra o pavor necessário
Das graciosas noites frescas.
Não só contra o calor da água;
Ou contra a frialdade do fogo.
Não apenas contra a apatia
Dos tão tresloucados nossos meses;
Ou contra a temperança
Dos anos intensamente dúbios...

Mas sim, contra tudo isso junto,

Batido, escaldado, misturado...
Impingido a nós com crueldade
A esta vida já morta,
Como é que se pode sobreviver?

Especialmente se nosso tempo

Não mudou e nosso lugar estagnou,
Se estamos nus no escuro
O que fazer?


Wyllelmynah Drakul

Curitiba, 26 de maio de 2011.

16 de maio de 2013

DOR


O que há de dor
É o que há de sentir-se
Para sempre e muito.
Porque é imensurável,
Porque é imortal.

Porque não pára o mundo,
Mas pára quem a sente.

O que há de dor,
Há de triste solidão.
Pois eis que são desertas as noites,
Pois eis que são vazios os dias.

..................................................

Ah, estas linhas...
Elas são escritas a sangue.
Letras trêmulas e escarlates
Palavras e frases etéreas.

Espancaste-me hoje
E eu não gritei.
Não havia dor em mim.
Mas, um sorriso infantil,
Fraterno e doce,
Era o que me alegrava...

Se era o teu, não, não era.
Jamais poderia sê-lo.
Tu não sabes sorrir.
A ternura necessária
Para os lábios curvar;
Tu não a conheces.
Tua hombridade não te permite
Conhecê-la, vivenciá-la.

Espancaste-me hoje,
E eu descobri, finalmente,
Porque se diz que a dor,
É antes, da mente, da alma,
E não do corpo apenas.

Espancaste-me hoje,
Exatamente porquê?
O que eu te fiz?
O que eu não te fiz?
Esta raiva, este ódio,
De onde vêm? O que os origina?

O que há de dor em mim,
Levar-me-á ao abraço da morte.
Ela promete um amor infinito.
Um doce descanso, e justiça.

Não matarás outra.
Tua miserável vida acabará,
Em uma imagem exata do que não tens.

Quebre pois meu ossos,
Arrebente meus músculos.
Parando meu coração,
Minh'alma se elevará em um sorriso.

Consola-me saber que este barulho
Este sangue e estas marcas
Hão de condenar-te.
Na justiça humana,
Ou dentro de tua mente...

Apodrecerás em degradação inexorável.


Curitiba, 16 de maio de 2013.
Wyllelmynah Drakul.

6 de setembro de 2012

VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
.............................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
......................................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.....................................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/guardador.htm
Em um download perdido no tempo, embora seja oriundo do site: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp

20 de março de 2012

PERTO, AO REDOR E DENTRO


Saudações à loucura que me espreita,
Ao abismo que se abre para mim,
Aos ventos que me açoitam,
À tristeza, essa emoção que me envolve e sufoca,
Saudações especiais àqueles que sabem que eu morri...

A cada passo dado mais incertas se tornam,
A realidade que me cerca,
A terra em que pareço pisar;
E enquanto meu mundo se fragmenta
Minha vida se ancora nas profundezas
Mais escusas da terra em que caminho...

Será o abismo que me aquecerá?
Será a ventania que me abraçará?
Será a loucura a me espreitar?

Vida minha que se vai
Morte essa que não chega
Transmutação que não se dá.

Ao saudar o que há de pior em mim
Entrevejo os raios de luz no Universo
Mas minha iluminação é lunar;
É receptiva, filtrada, intuitiva.

É a Luz do Inferno...
É a Luz das Trevas...

Meu cantar é lúgubre, desacorçoado;
Meu viver é morrer, transmutar...

Eu me levanto em meio as ondas
Elevo-me aos céus perto das nuvens
E meu olhar é de rapina...
Caça em minh'alma os vermes;
E destruídos, eles param de me corroer...

Sinto dor, sinto frio, pressinto a perdição...
A deriva no céu ou no mar,
A disposição da Noite e da Lua.

A deriva em minhas emoções...
Desço ao fundo do abismo
Mergulho em águas escuras, abissais
O que me inunda e afoga
É capaz de cegar qualquer alma.

Mas é essa capacidade que me entrega
A minha Liberdade, o meu prêmio
Eu me conheço, e ao fazer isso,
Conheço o mundo, profundamente.

Os cantos sombrios, os saberes obscuros,
O licor dolorido de meu sangue,
A loucura plena de minha razão...

Amar a Noite, a Lua,
Ser parte das Trevas,
Que são afinal, aquilo que de nós
Está perto, ao redor e dentro.



Curitiba, 19 de março de 2012
Wyllelmynah Drakul

31 de janeiro de 2012

A CENA


Todos os pedaços em redor...
A grande poça ao centro...
O ruflar de asas acima...
Tudo isso compunha a cena.

Tudo isso nos pertencia
Do início ao fim;
Havíamos nos divertido.
Do fim ao início;
Havíamos sido os responsáveis.

Agora resta a árdua tarefa
De enterrar os corpos
Mas mesmo isso pode melhorar
Já inventaram o fogo, afinal.
Aperfeiçoemos seu uso então...

Todos os pedaços em redor...
A grande poça ao centro...
O ruflar de asas acima...
O odor e a luz da fogueira
Suavemente se espalhando,
Impregnando ações e palavras.
Tudo isso nos pertencia.

O entrelace orgíaco
De nosso sangue.
Os ruídos cálidos
As peles ásperas...

Uma noite eterna
Um banquete pleno
Para a alma e os sentidos.
Uma canção pura e clara.
Uma sinfonia sem instrumentos...

O crepitar das chamas
É trilha para teus dentes,
Ao mesmo tempo em que
Tua pele se dilacera para mim.

Não há porque sentir as pedras;
Abaixo de nós, perfurando-nos
Não sentir nada, nada,
Além de nossos corpos em sincronia.

O abraço mortal, destruidor
Que nos devolve a vida;
É que nos dá o sentido
De nossa existência...

O Sangue que é Vida,
Luz e razão máxima,
De estarmos enraizados
Nesta Noite Eterna
Cheia de sensações e sentimentos

Viveremos para sempre...
Assim como as Estrelas.
Pois o Sangue corre até nós,
Assim como os Rios para o Mar.

Curitiba, 30 de janeiro de 2012.
Wyllelmynah Drakul

28 de janeiro de 2012

PRAIA DAS ALMAS


Meu destino é:

Sufocar o ódio,
Dominar a repulsa,
Que sinto...
E controlar o vômito que habita em mim.

A minha vida é
Tudo que eu desejo esquecer.

Nas "ondas" deste
Ódio
Brotou uma planta...
Era bela,
A erva de raiva

E para cultivá-la
É preciso tempo.

- Vida, és de 
Toda e qualquer forma,
Tudo o que eu desejo
E preciso esquecer... -

E então eis que
Anoiteceu.

Neste céu, nesta noite,
Não existem nuvens,
Não existe Lua
Não existem Estrelas.

Neste céu
Não existe nada.

E por este motivo,
Para que este céu
Tenha ao menos
Uma Estrela
Ainda que triste,
Ainda que apagada..

Eu ando pela praia, 
Rumo ao mar,
Princesa Prateada
Na Noite Negra.

E mesmo longe
Da guerra,
Não tenho paz...

A água está fria
Mas é bela, doce,
Pura e cristalina.
A água está...
Amorosamente bela...

Ela leva meu corpo;
E seu abraço aquece minh'alma.

Aqui não existe dor!...

Aqui é o Reino que
Antecede ao dos 
Espíritos...

É o Reino em que
Eu ficarei...
Enquanto houverem
Estrelas, estarei aqui...
Provavelmente sozinha

E agora nem as
Ervas de raiva
Existem mais.

Estou completamente só
Meu corpo flutua
E minh'alma
Paira acima dele.

Apesar da chuva
O Mar está calmo
As águas em certo ponto
Estão vermelhas...
Existe sangue ali...

E então, eis que amanheceu
Um céu azul e belo,
Saúda uma sol
De pura energia.

Antes não havia
Nada disso.

A brisa bate em meu rosto,
Agita meus cabelos...
Meu corpo é
Tão quente.

Meu destino,
Não é morrer,
Não assim, não agora!

Meu destino é assustar
Aos que me temem,
É prender os livres
Revelar aos descrentes
Que a perda
É o maior e o pior Inferno
É tornar Pedra,
Quem me afronta.

Eu não sou a
Mesma de antes.
Agora, eu tenho
Meu Lar...
Meu amor...

E a minha vida
Foi enterrada.

Eu não poderia ser um anjo...
Mas também,
Não sou o que dizem.

Sou apenas
Uma Guardiã.

A Guardiã do Reino
Da Praia das Almas.

Viverei aqui
Enquanto houverem
Estrelas nascendo.
E já não estarei sozinha...

Pois mesmo
Contra certos Deuses
Voltou para mim
O Senhor destas terras.

Aquele que também é,
O Senhor de minha existência.

Eu sei que também sou
Senhora de sua existência
E que nada nos separará.
Afinal, não podemos
Nos afastar daqui.

Aportou hoje em sua
Caravela Negra,
Um Homem
Sem semelhanças
Com o Mundo.
Um ser muito especial

Somos forças complementares..

Houve um tempo, 
Em que éramos apenas vivos...
Mas, Hoje somos,
Morte e Renascimento.
                                                             Rio de Janeiro, 29 de junho de 2004.                                                                               Wyllelmynah Drakul