9 de outubro de 2013

VÂNDALAS

Não mais as estradas ao sol;
Não mais os dias oficiais;
Não mais os risos afetuosos;
Não mais os abraços amigos.

Dos amigos sobraram os corpos,
Cadáveres torturados, desfigurados,
Desumanizadas consciências apagadas.
Lembranças olvidadas, legados de poeira.

Dos afetos restaram as partidas,
Infelizes renúncias em prol do amanhã.
Esperanças mutiladas, esquartejadas
Pelo tropel da incompatibilidade decisória
Em política, filosofia e expectativas...

Dos dias nada mais se guardou,
As dores, as infiltrações de luz,
A brisa revigorante - suspensa por ser livre...
Memórias distantes amareladas pela angústia.

Das estradas ficou o não andar,
A interdição excruciante da vida,
A solidão noturna da eterna sombra;
Os passos apressados da não-vida.

Tudo isso sedimentado em almas
Que guardam a resistência pura,
Isolada de tudo e de todos.

As sobras intangíveis - inatingíveis -
De tudo que se foi alguma vez;
A indelicadeza sutil e atroz,
Digna dos errantes perdidos,
Espalhados, sem raízes...
Mas ainda com propósitos,
Com fé em seus ideais.

Entretanto, começou o retorno da maré.
E as águas cansadas do aprisionamento
Resolveram devolver a violência sofrida.
São águas vândalas, irracionais.
Águas que não reconhecem autoridade.

Essas águas, como as gentes,
Tudo suportaram, tudo!
E como as gentes se cansaram,
Perderam as inibições, as censuras...
Não são amorais, contudo,
Possuem moral própria.

Vistas por quem já as ameaçou,
Essas águas devem ser represadas,
Vilipendiadas e readequadas à ordem
Naturalizada e cristalizada do mundo.

Essas águas, por tudo atacadas
E deslegitimadas, assim como as gentes,
Resistem, revidam, lutam.
E vandalizam. E eis que isso é bom.

Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 18 de junho de 2013.


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