6 de dezembro de 2013

PODER DIVINO: RELIGIÃO COMO CATEGORIA DE LUTA EM UMA CRENÇA MINORITÁRIA

Trebaruna
Moonspell
Trebaruna filha da Dor
Guerreira sagrada, Deusa do Amor
Trebaruna teu leito semente
Acolhe-nos agora num muy doce abraço
Trebaruna és Vida, és Morte
Da Lua és filha, dos Lobos consorte
Trebaruna pagão é teu ventre
Ansiado refugio de quem ainda te sente
Viva!
Trebaruna és tu quem nos gera
Alimento teu seio d'Amor e de Guerra
Trebaruna a tua voz é
A melodia mais doce da nossa Terra
Trebaruna nós tuas crianças
Beijamos teus olhos cerrados com fervor
Trebaruna cantamos para ti
Somos teu eterno, fiel trovador.


INTRODUÇÃO

     Este trabalho se propõe a analisar o uso da categoria 'religião' como identidade política coletiva na luta por espaço e direitos na sociedade brasileira, detendo-se em específico no caso da chamada religião de paganismo denominada Bruxaria; muito embora a denominação abrigue diversas outras linhas seguidas por suas adeptas. A escolha desta resulta de dois aspectos: a) a relevância em termos de adeptas declaradas; e, b) o fato destas adeptas terem formado órgãos de apoio e luta no cenário político-religioso brasileiro.
     A partir da literatura indicada nesta disciplina escolheram-se os textos de Latour, Durkheim, e, Asad. Foram utilizados ainda outros escritos que não os constantes da literatura do curso da autoria de Durkheim e Mauss, além de escritos sobre Asad e Latour, além de alguns textos de Foucault para ilustrar a perspectiva dos discursos de poder. Os livros que versam (do ponto de vista das adeptas) sobre o paganismo são obras reconhecidas e bem difundidas no meio pagão; são as obras de Laurie Cabot (uma em parceria com Tom Cowan, a outra com Jean Mills), A. J. Drew, e a autora brasileira Mirella Faur. Tais livros foram utilizados mais para consultar as linhas de pensamento vigentes hoje no cenário pagão brasileiro, orientando assim o entendimento das questões relacionadas às perspectivas das adeptas destas crenças.
Algumas observações:
1) Embora a gramática preze que o gênero neutro é o masculino – adeptos – aqui se utilizará o feminino, pois o número de mulheres na Bruxaria sobrepuja em muito o de homens.
2) Algumas palavras estão com inicial maiúscula em meio de frase, é apenas um indicativo de que aquele nome ou conceito veio direto do objeto de estudo deste ensaio.
3) 'BRUXA' quando grafado desta forma refere-se à imagem, ao arquétipo, ao conceito que essa palavra evoca na sociedade e, por conseguinte, nesta análise.


PALAVRA E PODER

     Antes de iniciar propriamente este ensaio é necessário contar um pequeno conto da mitologia celta, como quase toda história mitológica, esta também não tem uma autoria definida, está escrita conforme foi recompilada por mim há algum tempo. Recontar essa história é necessário para abordar como as histórias podem ser modificadas ao longo do tempo, seja por uma autoridade, seja por conveniência. Mas há um inegável poder nas palavras e nas histórias que circulam entre nós. Esse poder é construído ao longo do tempo e pode tanto elevar discursos e saberes para que estes sejam difundidos nas sociedades instituindo e garantindo a ordem, quanto enterrar saberes e discursos para manter ou estabelecer uma nova ordem social.


RHIANNON, FILHA DE HEFFAID.
      Rhiannon significa no idioma galês "Grande Rainha", esta deusa rege a noite, a morte, a alegria, a vida e a entrada do Outro Mundo – plano ou mundo dos mortos, e é considerada uma das manifestações da Grande Mãe no panteão celta atualmente cultuado. Uma de suas histórias conta como a deusa perdeu seu filho, é esta que será contada agora.
     Rhiannon, filha de Heffaid, era uma bela e destemida donzela que estava prometida para o deus Gwawl, filho de Cludd, mas que não o desejava, preferindo um casamento com o humano rei Pwyll, filho de Dyfed.
Desobedecendo à ordem paterna Rhiannon e Pwyll se casam. Mas a deusa fora amaldiçoada por seu pai e tornara-se estéril. A corte tenta em vão convencer o rei Pwyll a abandoná-la, mas ele se recusa, pois ama Rhiannon.
     Passado um tempo e após o emprego de artes mágicas, a deusa engravida, e o reino festeja a chegada de um herdeiro. É então que uma tragédia se abate. Rhiannon dá a luz a um lindo menino e adormece; em sono profundo também ficam as parteiras da deusa, e, desta feita, Gwawl rapta o filho de sua ex-prometida.      Quando as parteiras acordam e se dão conta do ocorrido, tentam escapar à punição pelo artifício de culparem a deusa; para tanto matam alguns pequenos animais e lambuzam Rhiannon com o sangue e
os ossos para que ela fosse acusada de ter devorado o próprio filho. A rainha tenta em vão provar sua inocência, contudo o rei e a corte acreditam no engodo das parteiras. Rhiannon é transformada simbolicamente em um cavalo, destinada a transportar nas costas todas as pessoas da porta do palácio até o trono do rei, e a contar-lhes como sua, a história das parteiras.
     Sete anos depois, Tiernon que havia achado o filho de Rhiannon, chega ao palácio com o menino. Durante todo esse tempo ele e sua esposa cuidaram da criança e notaram conforme o tempo que o menino era apaixonado por cavalos – assim como Rhiannon – e que se parecia muito com o rei Pwyll. Tiernon descobrira que havia encontrado o menino no mesmo dia em que Rhiannon havia dado à luz e perdido seu filho. O homem recusa-se a ser carregado pela deusa, adentra o palácio e diante dos presentes anuncia o menino como o filho perdido do rei e da deusa.
     Rhiannon finalmente é inocentada, e por meio de artes mágicas descobre que Gwawl havia enfeitiçado a ela e as parteiras para roubar-lhe o filho. A rainha finalmente pode criar seu filho, viver seu casamento e contar sua verdadeira história para o reino.
     Um dos exemplos deste conto é de que a história é escrita por quem detém o poder formal – especialmente quando a decisão do rei imputa à deusa uma versão falsa sobre sua tragédia – ainda que essa pessoa ou esse grupo se apoie em dados oriundos de grupos ou pessoas desprovidas de poder formal. A noção de poder aqui abordada é visão de Foucault expressa ao longo do livro "Microfísica do Poder" (1985); para este autor as noções de discurso e de práticas discursivas são centrais na construção das instituições sociais que gerem todas as instâncias da vida ainda que indiretamente.
     Os estudos foucaultianos sobre o poder rejeitam a tese de que o poder seja negativo, repressivo, unificado e vertical; em favor da discussão sobre como os diversos poderes se construíram em paralelo e também em choque sem que houvesse uma estratégia definida e sem estrategistas reconhecidos (fosse como classe social – coletivo – fosse como indivíduos). Esse poder é um jogo de forças, há uma pressão de cima para baixo e de fora para dentro, mas há também e principalmente uma pressão de baixo para cima e de dentro para fora. Este jogo de forças só pode ocorrer a partir do indivíduo com uma subjetividade anelante de engajamento e pertencimento a um poder que a tudo permeia. A principal análise é de como o indivíduo absorve e reproduz o que lhe é mostrado reiterando um comportamento e, por conseguinte, reiterando um discurso previamente estabelecido. O poder também pode ser positivo e quando o é torna-se o sustentáculo e ainda o produtor de saberes. Admite-se uma guerra de todos contra todos, mas por outro lado infere-se uma teia de suporte da maioria à normalidade. A sociedade é repleta de poderes complementares, de aceitação e de fuga. Poderes de reforço do engajamento subjetivo. O discurso do poder se inscreve sobre a prática. E a prática inscreve-se sobre o discurso; absorvendo tudo que está em derredor e recriando-se em uma dialética diversa da hegeliana. A síntese não está pronta, por outro lado ela não precisa estar. É esse tipo de poder que gere a produção de discursos sobre o que é normal e o que não é.
     Portanto, a palavra como base do discurso é extremamente importante quando se trata de criar imagens discursivas a respeito de alguma ocorrência da realidade. Sobre imagens que disputam a atenção da sociedade convém observar o que diz Latour em "O que é Iconoclash? Ou, há um mundo além das guerras de imagem?", diz o autor que as imagens são imprescindíveis para a coletividade humana, vivemos temerosos quanto aos possíveis mascaramentos que elas possam produzir, mas ainda assim, não podemos abrir mão delas; e eis que a cada mudança social ocorrida, há também uma guerra entre as imagens que traduziam o mundo antes e as que passam a traduzi-lo na nova ordenação social.
     Se adotarmos a palavra 'BRUXA' como uma imagem – no sentido latouriano – podemos perceber que com o passar do tempo o significado atribuído a essa imagem sofreu diversos choques motivados pela política até que ela finalmente significasse para a maioria das pessoas 'um ser nefasto, uma mulher de péssimos humores, uma megera, uma mulher muito feia, desagradável, velha desprezível' dentre outros impropérios. Entretanto, anteriormente 'BRUXA' era a 'mulher sábia, curandeira, entendida nas artes de ajudar a parir, que conhecia as ervas e a natureza'; enfim, significados enobrecedores que ainda são mantidos dentro dos círculos de paganismo.
     Como apontam Cabot e Mills em "O Despertar da Bruxa em Cada Mulher: a natureza mágica da mulher e seus poderes ocultos" (2000) a bruxa se tornou um xingamento e, "tem sido tão flagrantemente mal-interpretada pela sociedade que, como é de se prever, tornou-se o pior pesadelo dos homens" (p. 12). A proposta dessas autoras é de que a palavra seja resgatada em seu sentido positivo e que seja usada para referenciar a posição religiosa das pessoas, além de defenderem que as bruxas precisam se articular politicamente para produzirem discursos sobre si que revelem uma imagem positiva sobre a bruxaria e quem a pratica.
     Ao compreender um pouco mais sobre a 'BRUXA' como imagem torna-se mais fácil compreender a definição de Bruxaria como religião e como esta vem traçando um caminho para legitimação social e política através do embate entre as imagens cristalizadas em uma sociedade majoritariamente cristã (que são negativas) e as imagens vindas de dentro destas crenças (que são positivas). Como bem comprova a história da deusa Rhiannon, as palavras tem poder, mas tem de ser repetidas à exaustão e por várias pessoas para que passem a ser vistas como verdade.


RELIGIÃO E LUTA POLÍTICA

     As definições de religião adotadas por este ensaio são as de Durkheim (e Mauss) e Asad . Primeiramente, há uma exposição do pensamento geral de Durkheim e Mauss, e após haverá a parte de Asad.
     Na sociologia durkheimiana a religião é vista como uma instituição que organiza a sociedade. Não há nela nada de sobrenatural em termos de inspiração; a religião atua como princípio social a sustentar a ordem simbólica e a reforçar atitudes coletivas. Tal abordagem explica a simbologia como expressão do real em termos próprios. Estes formam os sistemas de crença – cosmologias, filosofias e ciências – elaborando assim as formas e os conteúdos de pensamento das sociedades. Especialmente em “As Formas Elementares da Vida Religiosa” (DURKHEIM, 2000) o autor especifica a idéia de que a religião é uma lógica racional e que aí é onde se encontram inscritos os ritos que mantém as práticas de coletividade. Descreve a noção de o “natural” também é racional e que, portanto, a “ordem natural das coisas” aquela que exprime as regularidades do cotidiano e – por ser racional – prevê o imprevisível abrigará exceções de forma a confirmar as regras e manter a estrutura social.
     O “sagrado” surge da experimentação sensível a partir da sobreposição de uma idealização sistemática ao real. É o “sagrado” que forma a consciência social advinda do campo das idéias. Já o “profano” é formador da consciência coletiva oriunda do real. O pensamento religioso é repleto de representações sensíveis, ou seja, criando e moldando as noções de todo social. Para que uma religião seja considerada primitiva ela deve primeiramente ser o mais simples possível, e para explicá-la não deve ser utilizado nenhum elemento tomado de manifestação religiosa anterior.
     A vida ritual é a experiência simbólica que revive os temas mais fundamentais da ordem social e cósmica.
Na obra “Algumas Formas Primitivas de Classificação” (DURKHEIM & MAUSS, 1981) vemos que a capacidade de separar, definir, deduzir, e induzir, é um traço essencial da humanidade, variando apenas em função de como é aplicada; vemos assim que a função classificatória é produto da atividade individual. Classificar é segregar em grupos distintos, ordenados e reconhecidos por demarcações bastante estritas. Para sociedades não ocidentais, estas definições por vezes são mutáveis, difusas e indefinidas. Nas sociedades consideradas primitivas percebe-se que os indivíduos podem perder suas personalidades. Infere-se a partir daí que nenhuma classificação é natural e que todas decorrem de processos sociais. E também que estas são ordenações hierarquizadas, sistematizadas e contam com grupos que mantém relações delimitadas entre si. Tais classificações mantém o foco no grupo e não nos indivíduos. Vale ressaltar que uma concepção classificatória baseada na lógica não necessariamente será precisa.
     O que mais chama a atenção em quem estuda estes textos é o viés absolutamente secular utilizado para investigar e discutir a religião e ao qual os autores se aferraram. Talvez porque não se espere que a este assunto possa ter uma abordagem científica; talvez porque não se veja a religião como algo provido de lógica, semântica, códigos relacionais, simbologia e ferramentas sociais próprias de modo que se consiga com ela estruturar as sociedades e fomentar as relações sociais – principalmente as redes de solidariedade e as alianças ancoradas nos sistemas de troca.
     A noção de que o espaço simbólico do sagrado é por excelência o espaço da sobreposição do ideal ao real configurando-se assim um modo de agir que busca sedimentar nos indivíduos uma consciência social capaz de moldar e retificar seus sentimentos, modos de pensar e agir, suas noções de moralidade e ética; termina por criar mais representações do coletivo para si, do que representações individuais para indivíduos ou para o coletivo. Ao ler essas obras é importante notar que os símbolos religiosos são uma expressão do real a partir desta perspectiva, seus termos se inscrevem nos sistemas de crenças e ali atuam para unir, fortalecer, conciliar e ordenar.
     Em um trabalho solo, Durkheim (2000) define o fenômeno da religião como "um sistema solidário de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos que a elas aderem" (p. 32).
     No texto de Asad (2010) vê-se que a religião é uma categoria analítica historicamente que começa a ser substancialmente construída nos idos da Idade Média logo após a Reforma de Lutero. Asad explicita que uma definição universal de religião termina por ser uma definição cristã de religião; sem que isso seja um demérito, é fato que tendo sido produzida numa sociedade cristã e – em larga medida – para explicar o fenômeno cultural do cristianismo e somadas às tendências universalizantes da ciência, tal fato seria uma consequência lógica da teoria do autor; conforme fica explícito neste excerto:
"Faz parte do meu argumento básico que as formas, as pré-condições e os efeitos socialmente identificáveis daquilo que era considerado religião durante a época cristã medieval eram muito diferentes dos [efeitos,
pré-condições e formas] que são considerados religião na sociedade moderna. Quero chegar a este fato largamente reconhecido sem incorrer em mero nominalismo. Aquilo a que chamamos de poder religioso era distribuído de outra forma e tinha um ímpeto distinto. Eram diferentes as maneiras pelas quais esse poder criava e atravessava instituições jurídicas; eram diferentes as subjetividades [selves] que ele formava e às quais se reportava; eram diferentes as categorias de conhecimento que ele autorizava e tornava disponível. Contudo, uma consequência é que aquilo com que o antropólogo se confronta não é apenas uma coleção arbitrária de elementos e processos que por acaso chamamos de “religião”. Pois o fenômeno inteiro deve ser visto, em grande medida, no contexto das tentativas cristãs de alcançar uma coerência em doutrinas e práticas, regras e regulamentos, mesmo que esta situação nunca tenha sido plenamente alcançada. O meu argumento é que não pode haver uma definição universal de religião, não apenas porque seus elementos constituintes e suas relações são historicamente específicos, mas porque esta definição é ela mesma o produto histórico de processos discursivos."
     A definição da categoria religião como histórica lhe situa em uma dinâmica de tempo e espaço que permite analisar melhor como alguns grupos que não eram contemplados por essa definição têm agora buscado nesta categoria uma identidade de luta política para a outorga e o reconhecimento de direitos, principalmente quando há um embate com outras religiões já estabelecidas no ideário social como detentoras de direitos. Ao afirmar a origem genealógica da categoria analítica religião tornam-se mais compreensíveis os motivos da inscrição da Bruxaria como religião.
     Faz-se necessário que se defina o que é a Bruxaria atualmente; e o que o paganismo. Numa definição simples e cortante pode-se dizer que paganismo é todo sistema de crenças e práticas que trata a Terra como sagrada, freqüentemente politeísta e que não se filia de forma alguma ao cristianismo; numa palavra, uma religião que vem da Terra e que a ela volta, tendo várias divindades e sem batizar ninguém. Afinal, "quem não tem padrinho, morre pagão". Bruxaria é a religião que vendo a Natureza como sagrada, cultua a Deusa Tríplice (deidade feminina que é Donzela, Mãe e Anciã) e o Deus Cornífero (deidade masculina, Filho e Consorte da Deusa / Grande Mãe); às vezes, cultua-se a Divindade (deidade una e hermafrodita). Normalmente, as divindades pagãs da Bruxaria são interpretadas como sendo múltiplos aspectos da Deusa e do Deus, ou da Divindade, de modo que o culto dualista ou uno se torna politeísta sem que isso represente uma inconsistência para as adeptas.
A Bruxaria divide-se em vários panteões, tais como:
a) Helênico = culto às divindades greco-romanas;
b) Olimpismo = outro culto às divindades greco-romanas;
c) Kemético = culto às divindades egípcias;
d) Ródico = culto às divindades eslavas;
e) Ásatrú Vanatrú = culto às divindades nórdicas;
f) Odinismo = outro culto às divindades nórdicas;
g) Stregheria = culto às divindades italianas;
h) Reconstrucionismo Lusitano = culto às divindades portuguesas;
i) Tradição Ibérica = culto às divindades espanholas, bascas e lusitanas;
j) Bruxaria Tradicional = culto às divindades autóctones;
k) Dianismo Feminino / Tradição Diânica = culto à Deusa feito especificamente por mulheres;
l) Dianismo Masculino / Tradição dos Kouretes = culto à Deusa feito especificamente por homens;
m) Druidismo = culto às divindades celtas, gaulesas e galesas;
n) Bruxaria Ancestral = culto às divindades pré-históricas;
o) Wicca = culto às divindades ao Deus Cornífero e à Deusa Tríplice; normalmente associado com o panteão druídico; [Dentro da Wicca existem duas grandes Tradições – que se referem especificamente aos rituais de iniciação e interação com as deidades – a Gardneriana (considerada a Wicca Original, pois foi Gerald Gardner quem compilou os preceitos da Wicca) e a Alexandrina (que trabalha a Magia Cerimonial e foi fundada por Alex Sanders).]


CONCLUSÃO

     Essa profusão de credos dentro da mesma religião não impede que as adeptas se organizem em torno de associações como a UWB – União Wicca do Brasil e o Conselho de Bruxaria Tradicional; ambas as associações trabalham pela disseminação de informações acerca das religiões de Bruxaria, Wicca e Paganismo; visando assim um combate à intolerância que limita e pode até matar bruxas quando legitimada por discursos também religiosos. É notável também o trabalho da WLPA – Witche's League for Public Awareness, desenvolvido nos Estados Unidos e que atua na conscientização política de bruxas para que elas possam enfrentar casos de discriminação. O trabalho de disseminação correta de informações sobre Wicca, Bruxaria e Paganismo constantemente precisa informar que a crença em Wicca, Bruxaria e Paganismo é uma religião e não um crime, que essas religiões não matam e não bebem o sangue de criancinhas; e que mesmo quando há sacrifícios de animais, isto é feito de forma ritual, sem crueldade e destina-se a alimentar a congregação e transmuta-se em oferenda às deidades.
     A preocupação recorrente em ser vista e entendida como religião – embora a Bruxaria não tenha dogmas ou estruturas rígidas de hierarquia – é fundamentada pela perseguição já sofrida anteriormente. Além de que, religiões tem uma aceitação maior do que seitas, pois estas últimas costumam estar associadas com tragédias como suicídio coletivo.
     Portanto, o que as Bruxas têm descoberto com cada vez mais profundidade é que a luta política só é possível através da organização coletiva em trono de uma identidade, por mais limitador que isso seja; e que reivindicar a si uma identidade religiosa tem se mostrado uma eficaz e emponderadora estratégia na garantia de direitos e no enfrentamento aos casos de intolerância religiosa, tais como a destruição de oferendas ou o impedimento da execução de rituais e reuniões em locais públicos.


BIBLIOGRAFIA

ASAD, Talal. A Construção da Religião Como uma Categoria Antropológica. Revista cadernos de campo, São Paulo, n. 19, p. 263-284, 2010
CABOT, Laurie; MILLS, Jean. O Despertar da Bruxa em Cada Mulher: a natureza mágica da mulher e seus poderes ocultos. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
________________; COWAN, Tom. O Poder da Bruxa: a Terra, a Lua e o Caminho Mágico Feminino. Rio de Janeiro: Campus, 1994.
DREW, A. J. Wicca: Feitiços para Homens. São Paulo: Madras Editora, 2002.
DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2000 [1912].
________________. Representações Individuais e Representações Sociais In Sociologia e Filosofia. São Paulo: Ícone. 1994 [1898]. Cap. 1.
________________; MAUSS, Marcel. Algumas Formas Primitivas de Classificação in Ensaios de Sociologia. São Paulo: Perspectiva. 1981 [1903].
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993.
GIUMBELLI, Emerson. A Noção de Crença e suas Implicações para a Modernidade: Um Diálogo Imaginado entre Bruno Latour e Talal Asad. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 17, n. 35, p. 327-356, jan./jun. 2011.

SITES CONSULTADOS (em 29/11/2013 às 21:00)

Conhecimento Subterrâneo: http://conhecesubterra.blogspot.com.br/2013/10/rhiannon-filha-de-heffaid.html
Conselho de Bruxaria Tradicional:
http://www.bruxariatradicional.com.br/
União Wicca do Brasil:
http://uniaowiccadobrasil.com.br/
Witche's League for Public Awareness:
http://celticcrow.com/

25 de novembro de 2013

DIVA REBELDE

Na última entrevista de emprego que eu fiz, perguntaram assim: "Já que você está na fila para cirurgia de redução de estômago, você tem uma previsão de quando vai ser?" Ao que eu respondi: "Não estou na fila, não farei nenhuma cirurgia". Então eu ouvi que "não sou responsável e não me cuido". Vendo que meu futuro emprego já tinha morrido... Simplesmente me levantei, reuni minhas coisas, estabilizei minha voz - afinal, estava furiosa - mandei a empresa à merda e, quanto a pessoa que fez a entrevista, que se fodesse; e saí como a diva que eu sei que sou.
É grosseria? Não, não é. É autopreservação, é autoestima, é amor e orgulho próprio; levantar a cabeça quando isso ocorre é lutar pela própria vida.
Grosseria é alguém inferir que o corpo de uma outra pessoa causa a ela dissabores tantos que necessite dessa cirurgia, sem que a pessoa em questão tenha mencionado isso. Grosseria é alguém inferir que a gordura ou obesidade de uma pessoa seja empecilho para exercer um trabalho. Mais que grosseria isso é violência, é tratar alguém como sub-humano.
Sinceramente, lutando como eu luto em um mundo que não me aceita, e que jamais me aceitará se continuar assim, eu sou uma heroína; melhor uma super-heroína.
A parte mais engraçada de tudo é que eu finalmente entendi o que é ser rebelde; a rebeldia é auto-aceitação, é perceber-se a si como sujeito no mundo e lutar para conquistar, garantir e manter seu lugar no mundo. Ser rebelde, ser consciente de que se é um desvio; ser feliz com isso e ter orgulho de sê-lo; é viver plenamente. E há mais pessoas como eu.
E acredito que não importa o que me trazido até aqui, eu continuarei, por que para mim só há a opção de lutar... Como se diz por aí: I will not kneel. (Eu não me ajoelharei / submeterei)

Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 25 de novembro de 2013

31 de outubro de 2013

RHIANNON, FILHA DE HEFFAID

Rhiannon significa no idioma galês "Grande Rainha", esta deusa rege a noite, a morte, a alegria, a vida e a entrada do Outro Mundo – plano ou mundo dos mortos, e é considerada uma das manifestações da Grande Mãe no panteão celta atualmente cultuado. Uma de suas histórias conta como a deusa perdeu seu filho, é esta que será contada agora.
Rhiannon, filha de Heffaid, era uma bela e destemida donzela que estava prometida para o deus Gwawl, filho de Cludd, mas que não o desejava, preferindo um casamento com o humano rei Pwyll, filho de Dyfed.
Desobedecendo à ordem paterna Rhiannon e Pwyll se casam. Mas a deusa fora amaldiçoada por seu pai e tornara-se estéril. A corte tenta em vão convencer o rei Pwyll a abandoná-la, mas ele se recusa pois ama Rhiannon.
Passado um tempo e após o emprego de artes mágicas, a deusa engravida, e o reino festeja a chegada de um herdeiro. É então que uma tragédia se abate. Rhiannon dá a luz a um lindo menino e adormece; em sono profundo também ficam as parteiras da deusa, e, desta feita, Gwawl rapta o filho de sua ex-prometida. Quando as parteiras acordam e se dão conta do ocorrido, tentam escapar à punição pelo artifício de culparem a deusa; para tanto matam alguns pequenos animais e lambuzam Rhiannon com o sangue e os ossos para que ela fosse acusada de ter devorado o próprio filho. A rainha tenta em vão provar sua inocência, contudo o rei e a corte acreditam no engodo das parteiras. Rhiannon é transformada simbolicamente em um cavalo, destinada a transportar nas costas todas as pessoas da porta do palácio até o trono do rei, e a contar-lhes como sua, a história das parteiras.
Sete anos depois, Tiernon que havia achado o filho de Rhiannon, chega ao palácio com o menino. Durante todo esse tempo ele e sua esposa cuidaram da criança e notaram conforme o tempo que o menino era apaixonado por cavalos – assim como Rhiannon – e que parecia-se muito com o rei Pwyll. Tiernon descobrira que havia encontrado o menino no mesmo dia em que Rhiannon havia dado à luz e perdido seu filho. O homen recusa-se a ser carregado pela deusa, adentra o palácio e diante dos presentes anuncia o menino como o filho perdido do rei e da deusa.
Rhiannon finalmente é inocentada, e por meio de artes mágicas descobre que Gwawl havia enfeitiçado a ela e as parteiras para roubar-lhe o filho. A rainha finalmente pode criar seu filho, viver seu casamento e contar sua verdadeira história para o reino.


Recompilada a partir de diversas e já esquecidas fontes por Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 31 de outubro de 2013.

10 de outubro de 2013

OBESA

Eu sou OBESA.

Daquelas que a medicina se arvora em dizer que:
"PRECISA DE CIRURGIA".
Daquelas que as pessoas gordofóbicas se arvoram em dizer que:
"NÃO SE CUIDA".
Daquelas que as gentes se arvoram em dizer que:
"COM SAÚDE NÃO SE BRINCA, EMAGREÇA".

Eu sou OBESA.

Daquelas que são apontadas para os outros:
"LÁ VAI A GORDA, DEUS ME LIVRE SER ASSIM".
Daquelas que são interpeladas pelos outros:
"VOCÊ DEVIA COMER MELHOR, VIU?".
Daquelas que são escarnecidas pelos outros:
"QUANDO VOCÊ ANDA O CHÃO TREME".

Eu sou OBESA.

Daquelas que não chamam pra sair porque:
"NÃO CABE NA FOTO".
Daquelas que ouvem a todo momento:
"ISSO É FALTA DE VERGONHA NA CARA".
Daquelas para quem não se cansam de dizer:
"VOCÊ TEM UM ROSTO TÃO BONITO".

Eu sou OBESA.

Daquelas de quem O POVO RI, antes de matar.
Daquelas que SOBRAM NAS CADEIRAS UNIVERSITÁRIAS.
Daquelas de quem AS PESSOAS SENTEM NOJO.

EU SOU OBESA.

A minha sanidade, a minha pessoalidade,
Está sempre em dúvida. Sempre em xeque.
A minha capacidade laborativa, inexiste
Aos olhares das pessoas gordofóbicas.

EU SOU OBESA.

Eu inexisto pois atrapalho.
Eu inexisto mesmo existindo.
Eu não tenho direito à vida,
Até porque, estou apenas exagerando.

EU SOU HUMANA. SOU MULHER. SOU OBESA.
Minha alma é grande demais para os padrões.
Eu incomodo por provar ser possível.
Eu sou a diferença, eu vivo a diferença.

Eu sou obesa.

Apenas por dizer isso,
Destruo alicerces de vida.
Apenas por levantar a cabeça,
Eu já devia ter morrido.

Eu sou obesa.
Não morrerei por ser gorda,
Nem por nada a isso associado;
Morrerei por ter vivido uma vida,
Vilipendiada por um juízo abestado.


Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 10 de outubro de 2013.


9 de outubro de 2013

VÂNDALAS

Não mais as estradas ao sol;
Não mais os dias oficiais;
Não mais os risos afetuosos;
Não mais os abraços amigos.

Dos amigos sobraram os corpos,
Cadáveres torturados, desfigurados,
Desumanizadas consciências apagadas.
Lembranças olvidadas, legados de poeira.

Dos afetos restaram as partidas,
Infelizes renúncias em prol do amanhã.
Esperanças mutiladas, esquartejadas
Pelo tropel da incompatibilidade decisória
Em política, filosofia e expectativas...

Dos dias nada mais se guardou,
As dores, as infiltrações de luz,
A brisa revigorante - suspensa por ser livre...
Memórias distantes amareladas pela angústia.

Das estradas ficou o não andar,
A interdição excruciante da vida,
A solidão noturna da eterna sombra;
Os passos apressados da não-vida.

Tudo isso sedimentado em almas
Que guardam a resistência pura,
Isolada de tudo e de todos.

As sobras intangíveis - inatingíveis -
De tudo que se foi alguma vez;
A indelicadeza sutil e atroz,
Digna dos errantes perdidos,
Espalhados, sem raízes...
Mas ainda com propósitos,
Com fé em seus ideais.

Entretanto, começou o retorno da maré.
E as águas cansadas do aprisionamento
Resolveram devolver a violência sofrida.
São águas vândalas, irracionais.
Águas que não reconhecem autoridade.

Essas águas, como as gentes,
Tudo suportaram, tudo!
E como as gentes se cansaram,
Perderam as inibições, as censuras...
Não são amorais, contudo,
Possuem moral própria.

Vistas por quem já as ameaçou,
Essas águas devem ser represadas,
Vilipendiadas e readequadas à ordem
Naturalizada e cristalizada do mundo.

Essas águas, por tudo atacadas
E deslegitimadas, assim como as gentes,
Resistem, revidam, lutam.
E vandalizam. E eis que isso é bom.

Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 18 de junho de 2013.


15 de junho de 2013

O TEMPO E O LUGAR

Em que tempo e
Em que lugar,
Se permite, se aceita
Que todos os sonhos se evaporem?

Em que tempo e como

Se pode permitir que
As vidas sejam dilaceradas
Em escala industrial?

Em que lugar se permite

Que a própria juventude
Seja violentada, aviltada
De forma tal que nos impeça
De sentir e ver o que poderíamos ser?
Duma forma que nos faça
Esquecer nossos horizontes...

Em que tempo e em que lugar...


A vida segue, persegue

Arrebata, arrebenta;
Briga, brinca...
A vida é um rio,
Placidamente caudaloso

A vida continua,

Sem agarrar-se
A um lugar, a um tempo
Pois é infinita, ínfima.

Independentemente dos atores,

Mas sem imparcialidades ideais,
O cenário e o roteiro deste épico
São, sempre, semelhantes...
        Sempre...
Sofrem, de fato, alterações
Mínimas, adaptativas, para que
Encenemos uma velha peça;
Muda mesmo quando há falas...
De beleza e melancolia
Inquebrantáveis...

Como e em que tempo

E onde estamos parados?

Se tudo esquecemos,

Então, de que forma
Conseguiremos lembrar?

Afinal como se tortura alguém

Até que esse alguém esqueça
Sua identidade, sua essência?

Como fazer, realizar algo

Estando de pés e mãos e línguas
Atados, cortados, impossibilitados?

Como se aceita e outorga

O Poder e a Autoridade
Para que se violente, se aniquile
Sonhos, amores, vidas, ideais,
Famílias, indivíduos, realidades?

Como reparar todo e 

Tamanho mal?
Como mensurar e abranger o
Absolutamente intangível?

Qual é o preço disso tudo?

Se vamos pagá-lo, se vamos
De fato, honrar a dívida;
Haverá juros, taxas?

Ou será que abandonaremos

Tal situação irresponsavelmente?
Antes que ela nos intoxique,
Saberemos um antídoto?

O que destruir e de nós retirar

Para que tão somente se respire
Alguma coisa boa, feliz, limpa?

Há uma fumaça tóxica

Contaminando o fogo,
Imiscuindo-se na água,
Levando a terra embora,
Asfixiando o próprio ar.

Em que tempo e

Em que lugar,
Como se pode sobreviver?

Não apenas contra a loucura fixa

Dos mais claros dias de sol;
Ou contra o pavor necessário
Das graciosas noites frescas.
Não só contra o calor da água;
Ou contra a frialdade do fogo.
Não apenas contra a apatia
Dos tão tresloucados nossos meses;
Ou contra a temperança
Dos anos intensamente dúbios...

Mas sim, contra tudo isso junto,

Batido, escaldado, misturado...
Impingido a nós com crueldade
A esta vida já morta,
Como é que se pode sobreviver?

Especialmente se nosso tempo

Não mudou e nosso lugar estagnou,
Se estamos nus no escuro
O que fazer?


Wyllelmynah Drakul

Curitiba, 26 de maio de 2011.

16 de maio de 2013

DOR


O que há de dor
É o que há de sentir-se
Para sempre e muito.
Porque é imensurável,
Porque é imortal.

Porque não pára o mundo,
Mas pára quem a sente.

O que há de dor,
Há de triste solidão.
Pois eis que são desertas as noites,
Pois eis que são vazios os dias.

..................................................

Ah, estas linhas...
Elas são escritas a sangue.
Letras trêmulas e escarlates
Palavras e frases etéreas.

Espancaste-me hoje
E eu não gritei.
Não havia dor em mim.
Mas, um sorriso infantil,
Fraterno e doce,
Era o que me alegrava...

Se era o teu, não, não era.
Jamais poderia sê-lo.
Tu não sabes sorrir.
A ternura necessária
Para os lábios curvar;
Tu não a conheces.
Tua hombridade não te permite
Conhecê-la, vivenciá-la.

Espancaste-me hoje,
E eu descobri, finalmente,
Porque se diz que a dor,
É antes, da mente, da alma,
E não do corpo apenas.

Espancaste-me hoje,
Exatamente porquê?
O que eu te fiz?
O que eu não te fiz?
Esta raiva, este ódio,
De onde vêm? O que os origina?

O que há de dor em mim,
Levar-me-á ao abraço da morte.
Ela promete um amor infinito.
Um doce descanso, e justiça.

Não matarás outra.
Tua miserável vida acabará,
Em uma imagem exata do que não tens.

Quebre pois meu ossos,
Arrebente meus músculos.
Parando meu coração,
Minh'alma se elevará em um sorriso.

Consola-me saber que este barulho
Este sangue e estas marcas
Hão de condenar-te.
Na justiça humana,
Ou dentro de tua mente...

Apodrecerás em degradação inexorável.


Curitiba, 16 de maio de 2013.
Wyllelmynah Drakul.

15 de maio de 2013

FAMÍLIA TRADICIONAL


Ah, a família tradicional... Eu sou o que se chamava de bastarda antigamente. Eu nunca conheci a família do meu pai, e mal o conheço. Moro num lar monoparental.
Mas ainda tentam me convencer a entrar para a "família tradicional". Entretanto, quando roubaram meu remédio de asma, quando me agrediram, quando me abusaram, quando me importunaram por puro preconceito, quando tentaram me matar; sempre foram os filhos e as filhas da "família tradicional".
Em vários outros casos pelo mundo afora os filhos da "família tradicional" - mais que suas filhas e filhes - abusam, estupram, roubam, matam, ferem destroem, levam ao suicídio, orquestram e executam guerras. Eu começo a achar que muito provavelmente a "família tradicional" - esse conceito tão veementemente defendido pela direita - seja o grande mal do mundo.
Eu sempre vi mais problemas vindos dessa gente do que de quem é excluído. Esse modelo de
família, há muito não hegemônico, sufoca, violenta destrói, ao planeta e às pessoas. É esse o modelo que sustenta a violência doméstica e as violências de gênero. São essas as pessoas (é correto dizer isso - pessoas - dessas criaturas?) que apoiam o massacre em zonas de guerra, a escravidão, o encarceramento bestial que temos hoje. É esse tipo de pensamento que levam um ser a desumanizar outrem, que permite uma subjetivação tão cruel daquilo que nos afoga pouco a pouco.
Essa "família tradicional" que não suporta perder, ser enganada, ser trocada; é que mata suas crianças quando se rebelam, suas esposas quando vão embora, todas as pessoas que expressam diferenças à norma vigente, que experienciam seus gêneros de modo diverso ao que lhes foi imputado. É essa família que mata a todas as possibilidades de renovação e felicidade.
Um modelo excludente, doloroso, mas ainda acima do bem e do mal para muitas pessoas. Um modelo de vida a ser alcançado suplantando e asfixiando as individualidades e especificidades das pessoas que nele vivem simplesmente porque o grupo homogêneo apaga quem ousa brilhar por si.
Logicamente, estou me referindo às individualidades que tornam as pessoas singulares; às suas especificidades e ao seu brilho que lhes tornam únicas, não-copiáveis. Qualquer mínima expressão de diferença deve ser execrada, silenciada, apagada e esquecida. Isso é família? Não, família é um somatório de relações boas e benéficas para as pessoas envolvidas; se não tem nada disso não é família, é parentesco biológico.




Curitiba, 15 de maio de 2013.
Wyllelmynah Drakul

7 de abril de 2013

INQUEBRANTÁVEL



Perdi a conta das vezes que comi em banheiros - esses de deficiente físicx - ou em salas vazias, ou na mesa mais escondida do lugar que eu estivesse; são refeições solitárias apressadas. Já perdi a conta dos momentos agoniantes de comprar lanche, comida, besteira e até esmalte e maquiagem; e as pessoas ficarem olhando, como se eu fosse um alien. Dói ver do quanto a gente se priva de tudo - de sair, de brincar, de rir, de comer junto a alguém - só para não ser ainda mais desrespeitada, vilipendiada.
Hoje, eu sento onde for melhor, como durante as aulas se preciso for. Como e encaro quem me olha; encaro, faço careta, mando beijo, faço sinal obsceno, depende do freguês. Eu cansei de ser a pessoa que desvia que se esconde. Eu cansei de me controlar e chorar longe de tudo e de todxs.
Hoje quem quiser falar que fale. Muito já mudou, muito ainda tem que mudar. Entretanto, não é o fato de ser obesa mórbida que me impedirá de gargalhar, de sair, de ser uma pessoa normal. Eu estou me aceitando aos poucos, e a vida tem sido mais bela - mais azul, minha cor predileta  - mais tranquila.
Se eu emagrecerei? Não sei, não faço questão de saber. Eu sei que quero me tornar mais e mais saudável. E isso não tem correlação com os números da balança. Não. Isso tem correlação direta com o meu estado mental/espiritual. Eu levei tanto tempo para ver isso. Para entender isso. Foi um processo doloroso, solitário, atrapalhado. Tem sido doloroso, porém menos solitário e mais ordenado.
Descobrir através das minhas emoções as coisas que poderiam ser piores, navegar em minhas lembranças - e perceber quão poucas são felizes - para entender quem de fato eu sou é uma aprendizagem assustadora que exige de mim uma força e uma coragem que eu não sabia possuir.


Curitiba, 07 de abril de 2013.
Wyllelmynah Drakul

DARK BIJOUX


O que é a Dark Bijoux?

A Dark Bijoux é uma loja virtual que oferta bijuterias em tamanhos especiais - Plus Size - com inspirações em Arte Sombria e em moda Clássica, com um preço acessível e no tamanho certo para você.

Como eu conheço as peças?

Você assiste o vídeo, vê as fotos, ou explica qual é a sua bijoux dos sonhos... Daí eu junta todas as informações que você me passou e a gente combina os detalhes de feitura/disponibilidade e envio/entrega.


Como faço para comprar?

É simples envie um e-mail para darkbijoux@gmail.com em que conste o nome da peça, o seu nome, o seu endereço, e as suas medidas para a peça; que eu lhe envio as condições de pagamento e o prazo do frete.


Vocês tem uma linha exclusiva? E nesse caso é caro?

Nossas peças são - em grande maioria - exclusivas. As que não são tem aviso. Nós fazemos a bijoux, postamos vídeos/fotos, e você escolhe a exclusiva que tem mais a sua cara. Tudo isso com um preço justo e baixo. A bijoux não precisa ser cara para ser bonita e de boa qualidade.


Vocês fazem tamanhos pequenos também?

Sim, mas nesse caso apenas com as medidas enviadas por e-mail.

6 de abril de 2013

NIENNA

Esta coluna mistura vários assuntos que partem das mais diversas dores do mundo e de quem lhe habita. Chama-se "O CANTO DE NIENNA" por influência da obra de J R R Tolkien - O Silmarillion - na qual tão bela personagem aparece.

"Mais poderosa do que Estë é Nienna, irmã dos fëanturi, que vive sozinha. Ela conhece a dor da perda e pranteia todos os ferimentos que Arda sofreu pelos estragos provocados por Melkor.

  Tão imensa era sua tristeza, à medida que a Música se desenvolvia, que seu canto se transformou em lamento bem antes do final; e o som do lamento mesclou-se aos temas do Mundo antes que ele começasse. Não chora, porém, por si mesma; e quem escutar o que ela diz, aprende a compaixão e a persistência na esperança. Sua morada fica a oeste do Oeste, nos limites do mundo; e ela raramente vem à cidade de Valimar, onde tudo é alegria. Prefere visitar a morada de Mandos, que fica mais perto da sua; e todos os que esperam em Mandos clamam por ela, pois ela traz força ao espírito e transforma a tristeza em sabedoria. As janelas de sua casa olham para fora das muralhas do mundo."

Nienna é a compaixão, a sabedoria da dor, a lucidez após o desepero. É aquela que aprendeu a confortar e amar; a aliviar as dores e fadigas, as tristezas e os dissabores. É aquela que vê os erros e os indica misericordiosamente.

Aproximar-se de tal personagem demonstra o que desejo para as vidas ao meu redor e também para mim. Eu desejo um mundo melhor em que ouvir a dor alheia seja uma ato de amor, uma premissa de amizade e fé no próximo e também em si mesmx.

Aonde quer que cheguemos, aonde quer que estejamos, possamos ser parte iluminada deste Universo em que habitamos.

Edição fonte disponível em: http://www.4shared.com/office/JZqamfeF/O_Silmarillion_-_JRR_Tolkien.html?

19 de março de 2013

Nota de repúdio ao trote racista e sexista na faculdade de Direito da UFMG!

A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar ‘Humanidade’, relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo, não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano, são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores; os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos); procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.716/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei 9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.716/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetrados. O que seria motivo de vergonha vem ganhando o espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara ‘Democrático de Direito’; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês podem ler aqui: Trote com saudação nazista provoca acusações de racismo na UFMG.

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das ‘provas’ era algo cometer assédio sexual.

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos) , agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada ‘Ética’), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito ‘Direitos Humanos’.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres; nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência; que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal ‘brincadeira’repulsiva, lembramos:

‘Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus’ -

‘Onde não existe justiça não pode haver direito’.

Assinam o presente,

Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte –http://bhemciclo.org/

Ativismo de Sofá – http://ativismodesofa.blogspot.com.br/

Bidê Brasil – http://bdbrasil.org/

Biscate Social Club – http://biscatesocialclub.com.br/

Blogagem Coletiva da Mulher Negra –http://blogagemcoletivadamulhernegra.wordpress.com/

Blogueiras Feministas – http://blogueirasfeministas.com/

Blogueiras Negras – http://blogueirasnegras.wordpress.com/

Cecília Santos – http://www.cozinhadaceci.com.br/

Centro de estudos humanistas, libertários e anarquistas –http://reinehr.org/cehla/

Chopinho Feminino – http://chopinhofeminino.blogspot.com.br/

Cinezine Cineclube – http://cinezine.com.br/

Conhecimento Subterrâneo -http://conhecesubterra.blogspot.com.br/

Cozinha da Matilde – http://www.cozinhadamatilde.com.br/

Denise Arcoverde – http://sindromedeestocolmo.com/

Editora Artesanal Monstro dos Mares –http://monstrodosmares.com.br/

Entre Luma e Frida – http://entrelumaefrida.com.br/

Escreva Lola Escreva – http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/

Feministas do Cariri –http://www.facebook.com/feministasdocariri

Gilson Moura Henrique Junior –http://natransversaldotempo.wordpress.com/

Gizelli Souza – http://twitter.com/gizasousa

Gordas e feministas –https://www.facebook.com/gordasefeministas

Homem Feminista de Verdade –https://www.facebook.com/pages/Homem-Feminista-de-Verdade/

José Ricardo D’Almeida - https://www.facebook.com/josricalmeida

Larissa Santiago – http://mundovao.blogspot.com.br/

Liga Humanista Secular do Brasil – http://ligahumanista.org/

Lucia Freitas – http://ladybugbrazil.com/

Luciana Nepomuceno –http://borboletasnosolhos.blogspot.com.br/

Luluzinhacamp – http://luluzinhcacamp.com/

Machismo chato – http://machismochatodecadadia.tumblr.com/

Marcha das Vadias BH – http://slutwalkbh.blogspot.com.br/

Marília Moschkovich - www.mariliamoscou.com.br

Mulher Alternativa - www.mulheralternativa.net

Mulheres em Movimento Mudam o Mundo – http://mmm-rs.blogspot.com.br/

Mulheres Notáveis – http://mulheres-incriveis.blogspot.com.br/

Niara de Oliveira – http://pimentacomlimao.wordpress.com/

Ofensiva contra o machismo –http://contramachismo.wordpress.com/

Ogums Toques – http://ogumstoques.com/

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