15 de maio de 2013

FAMÍLIA TRADICIONAL


Ah, a família tradicional... Eu sou o que se chamava de bastarda antigamente. Eu nunca conheci a família do meu pai, e mal o conheço. Moro num lar monoparental.
Mas ainda tentam me convencer a entrar para a "família tradicional". Entretanto, quando roubaram meu remédio de asma, quando me agrediram, quando me abusaram, quando me importunaram por puro preconceito, quando tentaram me matar; sempre foram os filhos e as filhas da "família tradicional".
Em vários outros casos pelo mundo afora os filhos da "família tradicional" - mais que suas filhas e filhes - abusam, estupram, roubam, matam, ferem destroem, levam ao suicídio, orquestram e executam guerras. Eu começo a achar que muito provavelmente a "família tradicional" - esse conceito tão veementemente defendido pela direita - seja o grande mal do mundo.
Eu sempre vi mais problemas vindos dessa gente do que de quem é excluído. Esse modelo de
família, há muito não hegemônico, sufoca, violenta destrói, ao planeta e às pessoas. É esse o modelo que sustenta a violência doméstica e as violências de gênero. São essas as pessoas (é correto dizer isso - pessoas - dessas criaturas?) que apoiam o massacre em zonas de guerra, a escravidão, o encarceramento bestial que temos hoje. É esse tipo de pensamento que levam um ser a desumanizar outrem, que permite uma subjetivação tão cruel daquilo que nos afoga pouco a pouco.
Essa "família tradicional" que não suporta perder, ser enganada, ser trocada; é que mata suas crianças quando se rebelam, suas esposas quando vão embora, todas as pessoas que expressam diferenças à norma vigente, que experienciam seus gêneros de modo diverso ao que lhes foi imputado. É essa família que mata a todas as possibilidades de renovação e felicidade.
Um modelo excludente, doloroso, mas ainda acima do bem e do mal para muitas pessoas. Um modelo de vida a ser alcançado suplantando e asfixiando as individualidades e especificidades das pessoas que nele vivem simplesmente porque o grupo homogêneo apaga quem ousa brilhar por si.
Logicamente, estou me referindo às individualidades que tornam as pessoas singulares; às suas especificidades e ao seu brilho que lhes tornam únicas, não-copiáveis. Qualquer mínima expressão de diferença deve ser execrada, silenciada, apagada e esquecida. Isso é família? Não, família é um somatório de relações boas e benéficas para as pessoas envolvidas; se não tem nada disso não é família, é parentesco biológico.




Curitiba, 15 de maio de 2013.
Wyllelmynah Drakul

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