31 de outubro de 2013

RHIANNON, FILHA DE HEFFAID

Rhiannon significa no idioma galês "Grande Rainha", esta deusa rege a noite, a morte, a alegria, a vida e a entrada do Outro Mundo – plano ou mundo dos mortos, e é considerada uma das manifestações da Grande Mãe no panteão celta atualmente cultuado. Uma de suas histórias conta como a deusa perdeu seu filho, é esta que será contada agora.
Rhiannon, filha de Heffaid, era uma bela e destemida donzela que estava prometida para o deus Gwawl, filho de Cludd, mas que não o desejava, preferindo um casamento com o humano rei Pwyll, filho de Dyfed.
Desobedecendo à ordem paterna Rhiannon e Pwyll se casam. Mas a deusa fora amaldiçoada por seu pai e tornara-se estéril. A corte tenta em vão convencer o rei Pwyll a abandoná-la, mas ele se recusa pois ama Rhiannon.
Passado um tempo e após o emprego de artes mágicas, a deusa engravida, e o reino festeja a chegada de um herdeiro. É então que uma tragédia se abate. Rhiannon dá a luz a um lindo menino e adormece; em sono profundo também ficam as parteiras da deusa, e, desta feita, Gwawl rapta o filho de sua ex-prometida. Quando as parteiras acordam e se dão conta do ocorrido, tentam escapar à punição pelo artifício de culparem a deusa; para tanto matam alguns pequenos animais e lambuzam Rhiannon com o sangue e os ossos para que ela fosse acusada de ter devorado o próprio filho. A rainha tenta em vão provar sua inocência, contudo o rei e a corte acreditam no engodo das parteiras. Rhiannon é transformada simbolicamente em um cavalo, destinada a transportar nas costas todas as pessoas da porta do palácio até o trono do rei, e a contar-lhes como sua, a história das parteiras.
Sete anos depois, Tiernon que havia achado o filho de Rhiannon, chega ao palácio com o menino. Durante todo esse tempo ele e sua esposa cuidaram da criança e notaram conforme o tempo que o menino era apaixonado por cavalos – assim como Rhiannon – e que parecia-se muito com o rei Pwyll. Tiernon descobrira que havia encontrado o menino no mesmo dia em que Rhiannon havia dado à luz e perdido seu filho. O homen recusa-se a ser carregado pela deusa, adentra o palácio e diante dos presentes anuncia o menino como o filho perdido do rei e da deusa.
Rhiannon finalmente é inocentada, e por meio de artes mágicas descobre que Gwawl havia enfeitiçado a ela e as parteiras para roubar-lhe o filho. A rainha finalmente pode criar seu filho, viver seu casamento e contar sua verdadeira história para o reino.


Recompilada a partir de diversas e já esquecidas fontes por Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 31 de outubro de 2013.

10 de outubro de 2013

OBESA

Eu sou OBESA.

Daquelas que a medicina se arvora em dizer que:
"PRECISA DE CIRURGIA".
Daquelas que as pessoas gordofóbicas se arvoram em dizer que:
"NÃO SE CUIDA".
Daquelas que as gentes se arvoram em dizer que:
"COM SAÚDE NÃO SE BRINCA, EMAGREÇA".

Eu sou OBESA.

Daquelas que são apontadas para os outros:
"LÁ VAI A GORDA, DEUS ME LIVRE SER ASSIM".
Daquelas que são interpeladas pelos outros:
"VOCÊ DEVIA COMER MELHOR, VIU?".
Daquelas que são escarnecidas pelos outros:
"QUANDO VOCÊ ANDA O CHÃO TREME".

Eu sou OBESA.

Daquelas que não chamam pra sair porque:
"NÃO CABE NA FOTO".
Daquelas que ouvem a todo momento:
"ISSO É FALTA DE VERGONHA NA CARA".
Daquelas para quem não se cansam de dizer:
"VOCÊ TEM UM ROSTO TÃO BONITO".

Eu sou OBESA.

Daquelas de quem O POVO RI, antes de matar.
Daquelas que SOBRAM NAS CADEIRAS UNIVERSITÁRIAS.
Daquelas de quem AS PESSOAS SENTEM NOJO.

EU SOU OBESA.

A minha sanidade, a minha pessoalidade,
Está sempre em dúvida. Sempre em xeque.
A minha capacidade laborativa, inexiste
Aos olhares das pessoas gordofóbicas.

EU SOU OBESA.

Eu inexisto pois atrapalho.
Eu inexisto mesmo existindo.
Eu não tenho direito à vida,
Até porque, estou apenas exagerando.

EU SOU HUMANA. SOU MULHER. SOU OBESA.
Minha alma é grande demais para os padrões.
Eu incomodo por provar ser possível.
Eu sou a diferença, eu vivo a diferença.

Eu sou obesa.

Apenas por dizer isso,
Destruo alicerces de vida.
Apenas por levantar a cabeça,
Eu já devia ter morrido.

Eu sou obesa.
Não morrerei por ser gorda,
Nem por nada a isso associado;
Morrerei por ter vivido uma vida,
Vilipendiada por um juízo abestado.


Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 10 de outubro de 2013.


9 de outubro de 2013

VÂNDALAS

Não mais as estradas ao sol;
Não mais os dias oficiais;
Não mais os risos afetuosos;
Não mais os abraços amigos.

Dos amigos sobraram os corpos,
Cadáveres torturados, desfigurados,
Desumanizadas consciências apagadas.
Lembranças olvidadas, legados de poeira.

Dos afetos restaram as partidas,
Infelizes renúncias em prol do amanhã.
Esperanças mutiladas, esquartejadas
Pelo tropel da incompatibilidade decisória
Em política, filosofia e expectativas...

Dos dias nada mais se guardou,
As dores, as infiltrações de luz,
A brisa revigorante - suspensa por ser livre...
Memórias distantes amareladas pela angústia.

Das estradas ficou o não andar,
A interdição excruciante da vida,
A solidão noturna da eterna sombra;
Os passos apressados da não-vida.

Tudo isso sedimentado em almas
Que guardam a resistência pura,
Isolada de tudo e de todos.

As sobras intangíveis - inatingíveis -
De tudo que se foi alguma vez;
A indelicadeza sutil e atroz,
Digna dos errantes perdidos,
Espalhados, sem raízes...
Mas ainda com propósitos,
Com fé em seus ideais.

Entretanto, começou o retorno da maré.
E as águas cansadas do aprisionamento
Resolveram devolver a violência sofrida.
São águas vândalas, irracionais.
Águas que não reconhecem autoridade.

Essas águas, como as gentes,
Tudo suportaram, tudo!
E como as gentes se cansaram,
Perderam as inibições, as censuras...
Não são amorais, contudo,
Possuem moral própria.

Vistas por quem já as ameaçou,
Essas águas devem ser represadas,
Vilipendiadas e readequadas à ordem
Naturalizada e cristalizada do mundo.

Essas águas, por tudo atacadas
E deslegitimadas, assim como as gentes,
Resistem, revidam, lutam.
E vandalizam. E eis que isso é bom.

Wyllelmynah Drakul
Curitiba, 18 de junho de 2013.