16 de maio de 2013

DOR


O que há de dor
É o que há de sentir-se
Para sempre e muito.
Porque é imensurável,
Porque é imortal.

Porque não pára o mundo,
Mas pára quem a sente.

O que há de dor,
Há de triste solidão.
Pois eis que são desertas as noites,
Pois eis que são vazios os dias.

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Ah, estas linhas...
Elas são escritas a sangue.
Letras trêmulas e escarlates
Palavras e frases etéreas.

Espancaste-me hoje
E eu não gritei.
Não havia dor em mim.
Mas, um sorriso infantil,
Fraterno e doce,
Era o que me alegrava...

Se era o teu, não, não era.
Jamais poderia sê-lo.
Tu não sabes sorrir.
A ternura necessária
Para os lábios curvar;
Tu não a conheces.
Tua hombridade não te permite
Conhecê-la, vivenciá-la.

Espancaste-me hoje,
E eu descobri, finalmente,
Porque se diz que a dor,
É antes, da mente, da alma,
E não do corpo apenas.

Espancaste-me hoje,
Exatamente porquê?
O que eu te fiz?
O que eu não te fiz?
Esta raiva, este ódio,
De onde vêm? O que os origina?

O que há de dor em mim,
Levar-me-á ao abraço da morte.
Ela promete um amor infinito.
Um doce descanso, e justiça.

Não matarás outra.
Tua miserável vida acabará,
Em uma imagem exata do que não tens.

Quebre pois meu ossos,
Arrebente meus músculos.
Parando meu coração,
Minh'alma se elevará em um sorriso.

Consola-me saber que este barulho
Este sangue e estas marcas
Hão de condenar-te.
Na justiça humana,
Ou dentro de tua mente...

Apodrecerás em degradação inexorável.


Curitiba, 16 de maio de 2013.
Wyllelmynah Drakul.

15 de maio de 2013

FAMÍLIA TRADICIONAL


Ah, a família tradicional... Eu sou o que se chamava de bastarda antigamente. Eu nunca conheci a família do meu pai, e mal o conheço. Moro num lar monoparental.
Mas ainda tentam me convencer a entrar para a "família tradicional". Entretanto, quando roubaram meu remédio de asma, quando me agrediram, quando me abusaram, quando me importunaram por puro preconceito, quando tentaram me matar; sempre foram os filhos e as filhas da "família tradicional".
Em vários outros casos pelo mundo afora os filhos da "família tradicional" - mais que suas filhas e filhes - abusam, estupram, roubam, matam, ferem destroem, levam ao suicídio, orquestram e executam guerras. Eu começo a achar que muito provavelmente a "família tradicional" - esse conceito tão veementemente defendido pela direita - seja o grande mal do mundo.
Eu sempre vi mais problemas vindos dessa gente do que de quem é excluído. Esse modelo de
família, há muito não hegemônico, sufoca, violenta destrói, ao planeta e às pessoas. É esse o modelo que sustenta a violência doméstica e as violências de gênero. São essas as pessoas (é correto dizer isso - pessoas - dessas criaturas?) que apoiam o massacre em zonas de guerra, a escravidão, o encarceramento bestial que temos hoje. É esse tipo de pensamento que levam um ser a desumanizar outrem, que permite uma subjetivação tão cruel daquilo que nos afoga pouco a pouco.
Essa "família tradicional" que não suporta perder, ser enganada, ser trocada; é que mata suas crianças quando se rebelam, suas esposas quando vão embora, todas as pessoas que expressam diferenças à norma vigente, que experienciam seus gêneros de modo diverso ao que lhes foi imputado. É essa família que mata a todas as possibilidades de renovação e felicidade.
Um modelo excludente, doloroso, mas ainda acima do bem e do mal para muitas pessoas. Um modelo de vida a ser alcançado suplantando e asfixiando as individualidades e especificidades das pessoas que nele vivem simplesmente porque o grupo homogêneo apaga quem ousa brilhar por si.
Logicamente, estou me referindo às individualidades que tornam as pessoas singulares; às suas especificidades e ao seu brilho que lhes tornam únicas, não-copiáveis. Qualquer mínima expressão de diferença deve ser execrada, silenciada, apagada e esquecida. Isso é família? Não, família é um somatório de relações boas e benéficas para as pessoas envolvidas; se não tem nada disso não é família, é parentesco biológico.




Curitiba, 15 de maio de 2013.
Wyllelmynah Drakul