Perdi a conta das vezes que comi em banheiros - esses de deficiente físicx - ou em salas vazias, ou na mesa mais escondida do lugar que eu estivesse; são refeições solitárias apressadas. Já perdi a conta dos momentos agoniantes de comprar lanche, comida, besteira e até esmalte e maquiagem; e as pessoas ficarem olhando, como se eu fosse um alien. Dói ver do quanto a gente se priva de tudo - de sair, de brincar, de rir, de comer junto a alguém - só para não ser ainda mais desrespeitada, vilipendiada.
Hoje, eu sento onde for melhor, como durante as aulas se preciso for. Como e encaro quem me olha; encaro, faço careta, mando beijo, faço sinal obsceno, depende do freguês. Eu cansei de ser a pessoa que desvia que se esconde. Eu cansei de me controlar e chorar longe de tudo e de todxs.
Hoje quem quiser falar que fale. Muito já mudou, muito ainda tem que mudar. Entretanto, não é o fato de ser obesa mórbida que me impedirá de gargalhar, de sair, de ser uma pessoa normal. Eu estou me aceitando aos poucos, e a vida tem sido mais bela - mais azul, minha cor predileta - mais tranquila.
Se eu emagrecerei? Não sei, não faço questão de saber. Eu sei que quero me tornar mais e mais saudável. E isso não tem correlação com os números da balança. Não. Isso tem correlação direta com o meu estado mental/espiritual. Eu levei tanto tempo para ver isso. Para entender isso. Foi um processo doloroso, solitário, atrapalhado. Tem sido doloroso, porém menos solitário e mais ordenado.
Descobrir através das minhas emoções as coisas que poderiam ser piores, navegar em minhas lembranças - e perceber quão poucas são felizes - para entender quem de fato eu sou é uma aprendizagem assustadora que exige de mim uma força e uma coragem que eu não sabia possuir.
Curitiba, 07 de abril de 2013.
Wyllelmynah Drakul