Trebaruna
Moonspell
Trebaruna filha da Dor
Guerreira sagrada, Deusa do Amor
Trebaruna teu leito semente
Acolhe-nos agora num muy doce abraço
Trebaruna és Vida, és Morte
Da Lua és filha, dos Lobos consorte
Trebaruna pagão é teu ventre
Ansiado refugio de quem ainda te sente
Viva!
Trebaruna és tu quem nos gera
Alimento teu seio d'Amor e de Guerra
Trebaruna a tua voz é
A melodia mais doce da nossa Terra
Trebaruna nós tuas crianças
Beijamos teus olhos cerrados com fervor
Trebaruna cantamos para ti
Somos teu eterno, fiel trovador.
INTRODUÇÃO
Este trabalho se propõe a analisar o uso da categoria 'religião' como identidade política coletiva na luta por espaço e direitos na sociedade brasileira, detendo-se em específico no caso da chamada religião de paganismo denominada Bruxaria; muito embora a denominação abrigue diversas outras linhas seguidas por suas adeptas. A escolha desta resulta de dois aspectos: a) a relevância em termos de adeptas declaradas; e, b) o fato destas adeptas terem formado órgãos de apoio e luta no cenário político-religioso brasileiro.
A partir da literatura indicada nesta disciplina escolheram-se os textos de Latour, Durkheim, e, Asad. Foram utilizados ainda outros escritos que não os constantes da literatura do curso da autoria de Durkheim e Mauss, além de escritos sobre Asad e Latour, além de alguns textos de Foucault para ilustrar a perspectiva dos discursos de poder. Os livros que versam (do ponto de vista das adeptas) sobre o paganismo são obras reconhecidas e bem difundidas no meio pagão; são as obras de Laurie Cabot (uma em parceria com Tom Cowan, a outra com Jean Mills), A. J. Drew, e a autora brasileira Mirella Faur. Tais livros foram utilizados mais para consultar as linhas de pensamento vigentes hoje no cenário pagão brasileiro, orientando assim o entendimento das questões relacionadas às perspectivas das adeptas destas crenças.
Algumas observações:
1) Embora a gramática preze que o gênero neutro é o masculino – adeptos – aqui se utilizará o feminino, pois o número de mulheres na Bruxaria sobrepuja em muito o de homens.
2) Algumas palavras estão com inicial maiúscula em meio de frase, é apenas um indicativo de que aquele nome ou conceito veio direto do objeto de estudo deste ensaio.
3) 'BRUXA' quando grafado desta forma refere-se à imagem, ao arquétipo, ao conceito que essa palavra evoca na sociedade e, por conseguinte, nesta análise.
PALAVRA E PODER
Antes de iniciar propriamente este ensaio é necessário contar um pequeno conto da mitologia celta, como quase toda história mitológica, esta também não tem uma autoria definida, está escrita conforme foi recompilada por mim há algum tempo. Recontar essa história é necessário para abordar como as histórias podem ser modificadas ao longo do tempo, seja por uma autoridade, seja por conveniência. Mas há um inegável poder nas palavras e nas histórias que circulam entre nós. Esse poder é construído ao longo do tempo e pode tanto elevar discursos e saberes para que estes sejam difundidos nas sociedades instituindo e garantindo a ordem, quanto enterrar saberes e discursos para manter ou estabelecer uma nova ordem social.
RHIANNON, FILHA DE HEFFAID.
Rhiannon significa no idioma galês "Grande Rainha", esta deusa rege a noite, a morte, a alegria, a vida e a entrada do Outro Mundo – plano ou mundo dos mortos, e é considerada uma das manifestações da Grande Mãe no panteão celta atualmente cultuado. Uma de suas histórias conta como a deusa perdeu seu filho, é esta que será contada agora.Rhiannon, filha de Heffaid, era uma bela e destemida donzela que estava prometida para o deus Gwawl, filho de Cludd, mas que não o desejava, preferindo um casamento com o humano rei Pwyll, filho de Dyfed.
Desobedecendo à ordem paterna Rhiannon e Pwyll se casam. Mas a deusa fora amaldiçoada por seu pai e tornara-se estéril. A corte tenta em vão convencer o rei Pwyll a abandoná-la, mas ele se recusa, pois ama Rhiannon.
Passado um tempo e após o emprego de artes mágicas, a deusa engravida, e o reino festeja a chegada de um herdeiro. É então que uma tragédia se abate. Rhiannon dá a luz a um lindo menino e adormece; em sono profundo também ficam as parteiras da deusa, e, desta feita, Gwawl rapta o filho de sua ex-prometida. Quando as parteiras acordam e se dão conta do ocorrido, tentam escapar à punição pelo artifício de culparem a deusa; para tanto matam alguns pequenos animais e lambuzam Rhiannon com o sangue e
os ossos para que ela fosse acusada de ter devorado o próprio filho. A rainha tenta em vão provar sua inocência, contudo o rei e a corte acreditam no engodo das parteiras. Rhiannon é transformada simbolicamente em um cavalo, destinada a transportar nas costas todas as pessoas da porta do palácio até o trono do rei, e a contar-lhes como sua, a história das parteiras.
Sete anos depois, Tiernon que havia achado o filho de Rhiannon, chega ao palácio com o menino. Durante todo esse tempo ele e sua esposa cuidaram da criança e notaram conforme o tempo que o menino era apaixonado por cavalos – assim como Rhiannon – e que se parecia muito com o rei Pwyll. Tiernon descobrira que havia encontrado o menino no mesmo dia em que Rhiannon havia dado à luz e perdido seu filho. O homem recusa-se a ser carregado pela deusa, adentra o palácio e diante dos presentes anuncia o menino como o filho perdido do rei e da deusa.
Rhiannon finalmente é inocentada, e por meio de artes mágicas descobre que Gwawl havia enfeitiçado a ela e as parteiras para roubar-lhe o filho. A rainha finalmente pode criar seu filho, viver seu casamento e contar sua verdadeira história para o reino.
Um dos exemplos deste conto é de que a história é escrita por quem detém o poder formal – especialmente quando a decisão do rei imputa à deusa uma versão falsa sobre sua tragédia – ainda que essa pessoa ou esse grupo se apoie em dados oriundos de grupos ou pessoas desprovidas de poder formal. A noção de poder aqui abordada é visão de Foucault expressa ao longo do livro "Microfísica do Poder" (1985); para este autor as noções de discurso e de práticas discursivas são centrais na construção das instituições sociais que gerem todas as instâncias da vida ainda que indiretamente.
Os estudos foucaultianos sobre o poder rejeitam a tese de que o poder seja negativo, repressivo, unificado e vertical; em favor da discussão sobre como os diversos poderes se construíram em paralelo e também em choque sem que houvesse uma estratégia definida e sem estrategistas reconhecidos (fosse como classe social – coletivo – fosse como indivíduos). Esse poder é um jogo de forças, há uma pressão de cima para baixo e de fora para dentro, mas há também e principalmente uma pressão de baixo para cima e de dentro para fora. Este jogo de forças só pode ocorrer a partir do indivíduo com uma subjetividade anelante de engajamento e pertencimento a um poder que a tudo permeia. A principal análise é de como o indivíduo absorve e reproduz o que lhe é mostrado reiterando um comportamento e, por conseguinte, reiterando um discurso previamente estabelecido. O poder também pode ser positivo e quando o é torna-se o sustentáculo e ainda o produtor de saberes. Admite-se uma guerra de todos contra todos, mas por outro lado infere-se uma teia de suporte da maioria à normalidade. A sociedade é repleta de poderes complementares, de aceitação e de fuga. Poderes de reforço do engajamento subjetivo. O discurso do poder se inscreve sobre a prática. E a prática inscreve-se sobre o discurso; absorvendo tudo que está em derredor e recriando-se em uma dialética diversa da hegeliana. A síntese não está pronta, por outro lado ela não precisa estar. É esse tipo de poder que gere a produção de discursos sobre o que é normal e o que não é.
Portanto, a palavra como base do discurso é extremamente importante quando se trata de criar imagens discursivas a respeito de alguma ocorrência da realidade. Sobre imagens que disputam a atenção da sociedade convém observar o que diz Latour em "O que é Iconoclash? Ou, há um mundo além das guerras de imagem?", diz o autor que as imagens são imprescindíveis para a coletividade humana, vivemos temerosos quanto aos possíveis mascaramentos que elas possam produzir, mas ainda assim, não podemos abrir mão delas; e eis que a cada mudança social ocorrida, há também uma guerra entre as imagens que traduziam o mundo antes e as que passam a traduzi-lo na nova ordenação social.
Se adotarmos a palavra 'BRUXA' como uma imagem – no sentido latouriano – podemos perceber que com o passar do tempo o significado atribuído a essa imagem sofreu diversos choques motivados pela política até que ela finalmente significasse para a maioria das pessoas 'um ser nefasto, uma mulher de péssimos humores, uma megera, uma mulher muito feia, desagradável, velha desprezível' dentre outros impropérios. Entretanto, anteriormente 'BRUXA' era a 'mulher sábia, curandeira, entendida nas artes de ajudar a parir, que conhecia as ervas e a natureza'; enfim, significados enobrecedores que ainda são mantidos dentro dos círculos de paganismo.
Como apontam Cabot e Mills em "O Despertar da Bruxa em Cada Mulher: a natureza mágica da mulher e seus poderes ocultos" (2000) a bruxa se tornou um xingamento e, "tem sido tão flagrantemente mal-interpretada pela sociedade que, como é de se prever, tornou-se o pior pesadelo dos homens" (p. 12). A proposta dessas autoras é de que a palavra seja resgatada em seu sentido positivo e que seja usada para referenciar a posição religiosa das pessoas, além de defenderem que as bruxas precisam se articular politicamente para produzirem discursos sobre si que revelem uma imagem positiva sobre a bruxaria e quem a pratica.
Ao compreender um pouco mais sobre a 'BRUXA' como imagem torna-se mais fácil compreender a definição de Bruxaria como religião e como esta vem traçando um caminho para legitimação social e política através do embate entre as imagens cristalizadas em uma sociedade majoritariamente cristã (que são negativas) e as imagens vindas de dentro destas crenças (que são positivas). Como bem comprova a história da deusa Rhiannon, as palavras tem poder, mas tem de ser repetidas à exaustão e por várias pessoas para que passem a ser vistas como verdade.
RELIGIÃO E LUTA POLÍTICA
As definições de religião adotadas por este ensaio são as de Durkheim (e Mauss) e Asad . Primeiramente, há uma exposição do pensamento geral de Durkheim e Mauss, e após haverá a parte de Asad.
Na sociologia durkheimiana a religião é vista como uma instituição que organiza a sociedade. Não há nela nada de sobrenatural em termos de inspiração; a religião atua como princípio social a sustentar a ordem simbólica e a reforçar atitudes coletivas. Tal abordagem explica a simbologia como expressão do real em termos próprios. Estes formam os sistemas de crença – cosmologias, filosofias e ciências – elaborando assim as formas e os conteúdos de pensamento das sociedades. Especialmente em “As Formas Elementares da Vida Religiosa” (DURKHEIM, 2000) o autor especifica a idéia de que a religião é uma lógica racional e que aí é onde se encontram inscritos os ritos que mantém as práticas de coletividade. Descreve a noção de o “natural” também é racional e que, portanto, a “ordem natural das coisas” aquela que exprime as regularidades do cotidiano e – por ser racional – prevê o imprevisível abrigará exceções de forma a confirmar as regras e manter a estrutura social.
O “sagrado” surge da experimentação sensível a partir da sobreposição de uma idealização sistemática ao real. É o “sagrado” que forma a consciência social advinda do campo das idéias. Já o “profano” é formador da consciência coletiva oriunda do real. O pensamento religioso é repleto de representações sensíveis, ou seja, criando e moldando as noções de todo social. Para que uma religião seja considerada primitiva ela deve primeiramente ser o mais simples possível, e para explicá-la não deve ser utilizado nenhum elemento tomado de manifestação religiosa anterior.
A vida ritual é a experiência simbólica que revive os temas mais fundamentais da ordem social e cósmica.
Na obra “Algumas Formas Primitivas de Classificação” (DURKHEIM & MAUSS, 1981) vemos que a capacidade de separar, definir, deduzir, e induzir, é um traço essencial da humanidade, variando apenas em função de como é aplicada; vemos assim que a função classificatória é produto da atividade individual. Classificar é segregar em grupos distintos, ordenados e reconhecidos por demarcações bastante estritas. Para sociedades não ocidentais, estas definições por vezes são mutáveis, difusas e indefinidas. Nas sociedades consideradas primitivas percebe-se que os indivíduos podem perder suas personalidades. Infere-se a partir daí que nenhuma classificação é natural e que todas decorrem de processos sociais. E também que estas são ordenações hierarquizadas, sistematizadas e contam com grupos que mantém relações delimitadas entre si. Tais classificações mantém o foco no grupo e não nos indivíduos. Vale ressaltar que uma concepção classificatória baseada na lógica não necessariamente será precisa.
O que mais chama a atenção em quem estuda estes textos é o viés absolutamente secular utilizado para investigar e discutir a religião e ao qual os autores se aferraram. Talvez porque não se espere que a este assunto possa ter uma abordagem científica; talvez porque não se veja a religião como algo provido de lógica, semântica, códigos relacionais, simbologia e ferramentas sociais próprias de modo que se consiga com ela estruturar as sociedades e fomentar as relações sociais – principalmente as redes de solidariedade e as alianças ancoradas nos sistemas de troca.
A noção de que o espaço simbólico do sagrado é por excelência o espaço da sobreposição do ideal ao real configurando-se assim um modo de agir que busca sedimentar nos indivíduos uma consciência social capaz de moldar e retificar seus sentimentos, modos de pensar e agir, suas noções de moralidade e ética; termina por criar mais representações do coletivo para si, do que representações individuais para indivíduos ou para o coletivo. Ao ler essas obras é importante notar que os símbolos religiosos são uma expressão do real a partir desta perspectiva, seus termos se inscrevem nos sistemas de crenças e ali atuam para unir, fortalecer, conciliar e ordenar.
Em um trabalho solo, Durkheim (2000) define o fenômeno da religião como "um sistema solidário de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos que a elas aderem" (p. 32).
No texto de Asad (2010) vê-se que a religião é uma categoria analítica historicamente que começa a ser substancialmente construída nos idos da Idade Média logo após a Reforma de Lutero. Asad explicita que uma definição universal de religião termina por ser uma definição cristã de religião; sem que isso seja um demérito, é fato que tendo sido produzida numa sociedade cristã e – em larga medida – para explicar o fenômeno cultural do cristianismo e somadas às tendências universalizantes da ciência, tal fato seria uma consequência lógica da teoria do autor; conforme fica explícito neste excerto:
"Faz parte do meu argumento básico que as formas, as pré-condições e os efeitos socialmente identificáveis daquilo que era considerado religião durante a época cristã medieval eram muito diferentes dos [efeitos,
pré-condições e formas] que são considerados religião na sociedade moderna. Quero chegar a este fato largamente reconhecido sem incorrer em mero nominalismo. Aquilo a que chamamos de poder religioso era distribuído de outra forma e tinha um ímpeto distinto. Eram diferentes as maneiras pelas quais esse poder criava e atravessava instituições jurídicas; eram diferentes as subjetividades [selves] que ele formava e às quais se reportava; eram diferentes as categorias de conhecimento que ele autorizava e tornava disponível. Contudo, uma consequência é que aquilo com que o antropólogo se confronta não é apenas uma coleção arbitrária de elementos e processos que por acaso chamamos de “religião”. Pois o fenômeno inteiro deve ser visto, em grande medida, no contexto das tentativas cristãs de alcançar uma coerência em doutrinas e práticas, regras e regulamentos, mesmo que esta situação nunca tenha sido plenamente alcançada. O meu argumento é que não pode haver uma definição universal de religião, não apenas porque seus elementos constituintes e suas relações são historicamente específicos, mas porque esta definição é ela mesma o produto histórico de processos discursivos."
A definição da categoria religião como histórica lhe situa em uma dinâmica de tempo e espaço que permite analisar melhor como alguns grupos que não eram contemplados por essa definição têm agora buscado nesta categoria uma identidade de luta política para a outorga e o reconhecimento de direitos, principalmente quando há um embate com outras religiões já estabelecidas no ideário social como detentoras de direitos. Ao afirmar a origem genealógica da categoria analítica religião tornam-se mais compreensíveis os motivos da inscrição da Bruxaria como religião.
Faz-se necessário que se defina o que é a Bruxaria atualmente; e o que o paganismo. Numa definição simples e cortante pode-se dizer que paganismo é todo sistema de crenças e práticas que trata a Terra como sagrada, freqüentemente politeísta e que não se filia de forma alguma ao cristianismo; numa palavra, uma religião que vem da Terra e que a ela volta, tendo várias divindades e sem batizar ninguém. Afinal, "quem não tem padrinho, morre pagão". Bruxaria é a religião que vendo a Natureza como sagrada, cultua a Deusa Tríplice (deidade feminina que é Donzela, Mãe e Anciã) e o Deus Cornífero (deidade masculina, Filho e Consorte da Deusa / Grande Mãe); às vezes, cultua-se a Divindade (deidade una e hermafrodita). Normalmente, as divindades pagãs da Bruxaria são interpretadas como sendo múltiplos aspectos da Deusa e do Deus, ou da Divindade, de modo que o culto dualista ou uno se torna politeísta sem que isso represente uma inconsistência para as adeptas.
A Bruxaria divide-se em vários panteões, tais como:
a) Helênico = culto às divindades greco-romanas;
b) Olimpismo = outro culto às divindades greco-romanas;
c) Kemético = culto às divindades egípcias;
d) Ródico = culto às divindades eslavas;
e) Ásatrú Vanatrú = culto às divindades nórdicas;
f) Odinismo = outro culto às divindades nórdicas;
g) Stregheria = culto às divindades italianas;
h) Reconstrucionismo Lusitano = culto às divindades portuguesas;
i) Tradição Ibérica = culto às divindades espanholas, bascas e lusitanas;
j) Bruxaria Tradicional = culto às divindades autóctones;
k) Dianismo Feminino / Tradição Diânica = culto à Deusa feito especificamente por mulheres;
l) Dianismo Masculino / Tradição dos Kouretes = culto à Deusa feito especificamente por homens;
m) Druidismo = culto às divindades celtas, gaulesas e galesas;
n) Bruxaria Ancestral = culto às divindades pré-históricas;
o) Wicca = culto às divindades ao Deus Cornífero e à Deusa Tríplice; normalmente associado com o panteão druídico; [Dentro da Wicca existem duas grandes Tradições – que se referem especificamente aos rituais de iniciação e interação com as deidades – a Gardneriana (considerada a Wicca Original, pois foi Gerald Gardner quem compilou os preceitos da Wicca) e a Alexandrina (que trabalha a Magia Cerimonial e foi fundada por Alex Sanders).]
CONCLUSÃO
Essa profusão de credos dentro da mesma religião não impede que as adeptas se organizem em torno de associações como a UWB – União Wicca do Brasil e o Conselho de Bruxaria Tradicional; ambas as associações trabalham pela disseminação de informações acerca das religiões de Bruxaria, Wicca e Paganismo; visando assim um combate à intolerância que limita e pode até matar bruxas quando legitimada por discursos também religiosos. É notável também o trabalho da WLPA – Witche's League for Public Awareness, desenvolvido nos Estados Unidos e que atua na conscientização política de bruxas para que elas possam enfrentar casos de discriminação. O trabalho de disseminação correta de informações sobre Wicca, Bruxaria e Paganismo constantemente precisa informar que a crença em Wicca, Bruxaria e Paganismo é uma religião e não um crime, que essas religiões não matam e não bebem o sangue de criancinhas; e que mesmo quando há sacrifícios de animais, isto é feito de forma ritual, sem crueldade e destina-se a alimentar a congregação e transmuta-se em oferenda às deidades.
A preocupação recorrente em ser vista e entendida como religião – embora a Bruxaria não tenha dogmas ou estruturas rígidas de hierarquia – é fundamentada pela perseguição já sofrida anteriormente. Além de que, religiões tem uma aceitação maior do que seitas, pois estas últimas costumam estar associadas com tragédias como suicídio coletivo.
Portanto, o que as Bruxas têm descoberto com cada vez mais profundidade é que a luta política só é possível através da organização coletiva em trono de uma identidade, por mais limitador que isso seja; e que reivindicar a si uma identidade religiosa tem se mostrado uma eficaz e emponderadora estratégia na garantia de direitos e no enfrentamento aos casos de intolerância religiosa, tais como a destruição de oferendas ou o impedimento da execução de rituais e reuniões em locais públicos.
BIBLIOGRAFIA
ASAD, Talal. A Construção da Religião Como uma Categoria Antropológica. Revista cadernos de campo, São Paulo, n. 19, p. 263-284, 2010
CABOT, Laurie; MILLS, Jean. O Despertar da Bruxa em Cada Mulher: a natureza mágica da mulher e seus poderes ocultos. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
________________; COWAN, Tom. O Poder da Bruxa: a Terra, a Lua e o Caminho Mágico Feminino. Rio de Janeiro: Campus, 1994.
DREW, A. J. Wicca: Feitiços para Homens. São Paulo: Madras Editora, 2002.
DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2000 [1912].
________________. Representações Individuais e Representações Sociais In Sociologia e Filosofia. São Paulo: Ícone. 1994 [1898]. Cap. 1.
________________; MAUSS, Marcel. Algumas Formas Primitivas de Classificação in Ensaios de Sociologia. São Paulo: Perspectiva. 1981 [1903].
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993.
GIUMBELLI, Emerson. A Noção de Crença e suas Implicações para a Modernidade: Um Diálogo Imaginado entre Bruno Latour e Talal Asad. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 17, n. 35, p. 327-356, jan./jun. 2011.
SITES CONSULTADOS (em 29/11/2013 às 21:00)
Conhecimento Subterrâneo: http://conhecesubterra.blogspot.com.br/2013/10/rhiannon-filha-de-heffaid.html
Conselho de Bruxaria Tradicional:
http://www.bruxariatradicional.com.br/
União Wicca do Brasil:
http://uniaowiccadobrasil.com.br/
Witche's League for Public Awareness:
http://celticcrow.com/